setembro 17, 2005

A entrevista do meu pai.

 


  O meu pai é professor de Filosofia e também outras disciplinas, mas isso já vão ler! Chama-se Gustavo! Acabaram as férias e as aulas a começar; esta entrevista é sobre o regresso às aulas. Espero que gostem.


 1. Qual a disciplina que ensinas?


 Sou Licenciado em Filosofia, ou seja, quando estive na Faculdade de Letras estudei num Curso só de Filosofia. Depois explico o que isso é… Mas na escolas onde já estive – e foram seis, desde que dou aulas – também dei outras disciplinas: Psicologia (Bahhh!!! – desculpem, mas não gosto, ou então é a Psicologia que não gosta mesmo nada de mim) e Sociologia. Dei aulas ao 10º ano, 11º e 12º, aos alunos mais crescidinhos do que vocês. Não me perguntaram se é difícil… mas eu respondo: é muito difícil ensinar Filosofia a alunos que gostam mais de fazer downloads de música em formato MP3, fazer bodyboard ou falar sobre futebol. Mas eu gosto. Também fiz muitas outras coisas na escola, mas disso falo depois.



2. A que horas tens de chegar à escola?


 Agora não tenho de chegar a hora nenhuma, porque como estou doentinho (“- As melhoras! – “- Obrigado!”) não estou a dar aulas. Mas quase sempre dei aulas de manhã, a entrar às 8.00 horas, 8.10, 8.20. Com sorte havia dias em que entrava perto das 10.00 da manhã. Mas por vezes começava de tarde, outras vezes tinha aulas de manhã e de tarde e até dei aulas à noite, em Setúbal, a começar pelas 19.00 horas, se não me engano. Este ano vou começar a ir à escola de novo para me voltar a habituar, e vou quando quiser. Nada mau, hem? Ah, esqueci-me de contar uma história: uma vez, numa escola do Barreiro, entrava pelas 8.00 horas da manhã. Como chegava cedo e queria dar o exemplo aos meus alunos chegava a estar na sala pelas 7.58 da madrugada… imagem a soneira.


 


3. Gostas do trabalho que tens?


 Uma vez um professor que eu tive na Universidade disse algo que nunca mais esqueci: ser professor é uma profissão excelente, mas por vezes há momentos completamente horríveis e tristes. Ele tinha razão. Mas esses momentos, na minha vida de professor, nem sequer têm sido muitos, felizmente. Por isso posso dizer que gosto muito porque me dá liberdade para fazer muitas coisas novas e às vezes meio malucas com os alunos, com os outros colegas, etc. Não imaginam a quantidade de coisas que se podem fazer numa escola, para além das aulas, e mesmo nas aulas…


4. Que outras actividades é que fazes na escola?


 Muitas. As que faço agora não… porque ainda não regressei à escola, mas as que tenho feito desde que sou professor… foram imensas. Vou só enumerar algumas, porque a entrevista já vai longa: ajudei as actividades do grupo de teatro da escola (mas não fazia teatro, porque senão ia ser uma barracada); participei nas actividades e também ajudei num clube de canoagem da minha escola, a descer rios e a dar tralhos para a água quando não devia; organizei quatro visitas ao estrangeiro com alunos e professores, - a Espanha, Madrid e Santiago de Compostela – e recebi-os depois cá em Portugal; criei e dirigi um jornal escolar durante vários anos e também uma revista cultural a falar de livros, de actividades da escola e coisas assim; trabalhei na Biblioteca da minha escola, fazendo exposições, promovendo sessões de leitura, debates com alunos, professores, pais, convidados de fora da escola, e trinta por uma linha… E que mais? Qual terá sido a coisa mais maluca que fiz?? Deixa-me ver… Acho que já sei. Foi aquela vez em que convidei um burro para vir à nossa escola dar as boas vindas aos nossos alunos do 7º ano de escolaridade. Mas o burro não quis vir e fugiu de novo para casa… (isto é completamente verdade, não estou a inventar). Também fiz outras coisas, mas já nem me lembro bem, e o espaço é pequeno.


 Mas, senhor jornalista Miguel, acho que não me fez uma pergunta que deveria ter feito; deixa lá, faço-a eu mesmo e também dou a resposta. É assim:


5. Senhor professor, se não fosse professor o que é que queria ser?


 Ora, quando era miúdo, mais ou menos da tua idade, queria ser três coisas; não sei se ao mesmo tempo (ia ser bem difícil) ou em idades um pouco diferentes. Primeiro queria ser ciclista, para ganhar corridas como o Joaquim Agostinho. Depois queria ser toureiro, para tourear como o José Mestre Baptista, um toureiro português que era muito bom na altura. Depois quis ser astronauta, para ir à lua, como os astronautas americanos. Mais tarde mudei de astronauta para astrónomo, para estudar as estrelas. Muito mais tarde queria ser marinheiro, para poder navegar nos barcos da marinha mercante, de país em país, de continente em continente. Acabei por não ser nada disso e por ser professor que é o que eu gosto mesmo de ser. Se fosse ciclista, ia dar tralhos de certeza, na primeira curva; se fosse toureiro, ia ter medo do touro ou cair do cavalo; se fosse astronauta, ia ter vertigens quando estivesse lá em cima; se fosse marinheiro… lembro-me agora que não sei nadar. Por isso sou prof. e gosto. Ciao!!

Posted by miguel_teixeira95 at setembro 17, 2005 12:57 PM
Comments
Tive curiosidade e vim espreitar.Entrevistaste o teu pai e ele ficou orgulhoso por isso através do blog dele vim ter aqui.Força continua. Dou-te os parabéns por já conseguires dominar as tecnologis.BJS Posted by: Agostinho at setembro 26, 2005 01:18 AM
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Lembrar-se de mim?